Alguns pontos sobre o dia de ontem

1 – Vi muitas pessoas criticando o “nível” dos deputados federais. Concordo, em alguns aspectos. Mas naquelas pessoas de “baixo nível”, encontrei também muito do que eu vejo no meu dia a dia. Falta de ética, falta de conteúdo, falta de compromisso. Sem falar da mediocridade e do cinismo. Não acho, sinceramente, que a representação esteja tão errada assim… E aos que descobriram o tal “nível” dos deputados no dia de ontem, dou os parabéns pela descoberta e os parabéns por terem, pela primeira vez na vida, assistido a uma sessão da Câmara dos Deputados. Ninguém é obrigado a acompanhar, mas para sair comentando bobagens por aí, é recomendável. Enfim, que assistam mais vezes!

2 – Bolsonaro e Jean Wyllys mais uma vez provam o tanto que são patéticos. Faces da mesma moeda. O primeiro enaltece Eduardo Cunha e a ditadura, pasmem!, em menos dez segundos. Acho que nem se eu treinar eu consigo falar tanta besteira em tão pouco tempo. O segundo tem aquele ar de superioridade, de intelectual incompreendido. De quem foi ao Big Brother como “experiência acadêmica” (absolutamente nada contra quem gosta do programa, ok?, só dou risada com a justificativa mesmo). E depois do voto sai cuspindo pelos lados… eis o tolerante, mais uma vez! Um, na verdade, está eternamente condenado a servir como o melhor cabo eleitoral do outro. E aliás, na minha opinião, eles precisam ser patéticos no Congresso Nacional por muito tempo, porque eles representam, sim!, muita gente. Espero que chegue um dia em que não representem mais.

3 – “Ah, o Estado é laico e os deputados estão falando de Deus”. O preâmbulo da Constituição fala de Deus — muita gente nem suspeita, já que nunca abriu nem a primeira página da Carta. Mas então eu conto para vocês que o artigo 5° da Constituição da República, que trata dos direitos e garantias fundamentais, dedica nada menos que três incisos para falar da liberdade religiosa. Cada um tem as suas crenças, as suas convicções, as coisas que importam quando se está diante de situações complicadas — como a do impeachment. Como sabem aqueles que me conhecem, religião não significa nada pra mim, mas significa muito para muitas pessoas e especialmente para a geração de pessoas que majoritariamente está no Congresso. Precisamos encarar as coisas com mais distanciamento. Ainda que não sejamos adeptos de determinadas práticas, se lícitas, devemos respeitar. Tem gente que se importa em discutir religião. Tem gente que se importa em discutir sexualidade. Tem gente que se importa em discutir futebol. Nenhuma dessas pautas é a minha, mas ainda assim, defendo que as pessoas possam fazer tais discussões com a devida liberdade e o devido respeito. Não sejamos “plurais” apenas com as pautas que nos são caras, ok?

4 – Para quem quer algo diferente agora, não existe outra saída que não seja o impeachment. Eu nunca votei em Michel Temer, diversamente de muitas pessoas que têm reclamado dele — e provavelmente eu nunca votaria. Não sou fã dele e não gosto do Eduardo Cunha. Mas não há outra saída. Não há como tirar “os três de uma vez”. Não existe essa balela de “antecipação de eleições”. E a pessoa que não combate um “mal” porque não aceita fazê-lo se não extirpar, ao mesmo tempo, todos os “males” da face da terra, está eternamente condenada a não conseguir fazer absolutamente nada na vida.

5 – EDUARDO CUNHA NÃO SERÁ VICE. Atenção! Se Dilma sair com a votação no Senado, Eduardo Cunha NÃO se transforma em vice-presidente — o cargo de vice fica vago. Só o vice-presidente sucede. Presidentes da Câmara, do Senado e do STF são apenas substitutos! House of Cards é muito bom mesmo, mas não existe, no Brasil, essa figura do parlamentar que vira presidente da República sem receber votos para isso.

6 – Opiniões toscas de deputados não desnaturam uma tese. Vi comentários durante o dia do tipo: “Nossa, olha a besteira que esse sujeito falou! Como você pode estar do mesmo lado dele?”. Como costumo sempre falar, opiniões de pessoas não são decisivas quando se está diante de teses, como a do impeachment. Pode-se argumentar que uma tese ou outra é forte porque conta com um apoio, mas isso não é lá muito relevante. Para cada boa ideia, teremos pessoas “boas” e pessoas “ruins” que a defendam. E para cada péssima ideia, teremos pessoas “boas” e “ruins” que a defendam. Apenas a título de exemplo: temos, contra o impeachment, o brilhante jurista Celso Antônio Bandeira de Mello. E temos, a favor, o não menos brilhante Ives Gandra da Silva Martins. Os dois são ótimos, sim. Eu, Marcel, já estudei textos muito bons dos dois. Um contra e o outro a favor. E isso quer dizer exatamente o quê sobre a tese do impeachment?… Nada. Da mesma forma como o apoio de um ou outro parlamentar não faz a menor diferença para o impeachment, a não ser no aspecto pragmático, de ser um voto a mais.

6 – Eduardo Cunha não é o dono do impeachment. A denúncia não é e nunca será dele e os fatos e fundamentos não foram articulados por ele. Ele abriu o procedimento na Câmara? Abriu. Mas sejamos sinceros: com o clima recente no país, daria para não abrir? Vocês se lembram quem abriu o procedimento contra Fernando Collor? Não, né… é exatamente porque essa pessoa não era a dona do processo! E, ademais, fico impressionado como tem gente que xinga a Rede Globo por ser “manipuladora” e cai em uma outra manipulação tão óbvia. Eduardo Cunha é o inimigo perfeito, desenhado pelo Palácio do Planalto para tentar tornar o impeachment um processo ilegítimo. A tentativa é justamente ferir o impeachment de morte, colando a imagem de Cunha a ele. Não fosse assim, por qual motivo as “marchas pela democracia” do PT e dos sindicatos pedem “Fora Cunha” e jamais “Fora Renan”, que é, também, um grande pilantra? Em tempo: fiquem tranquilos… Cunha é persistente, sim, mas não vai durar muito mais tempo.

7 – Lula e Dilma se aproveitaram muito da liderança de Eduardo Cunha. Sabem a facilidade com a qual ele manipula o regimento interno da Câmara em seu favor para adiar as deliberações do Conselho de Ética? Sabem da facilidade com a qual ele tem, aos seus pés, dezenas de parlamentares? Pois é. Não se esqueçam jamais que essa “habilidade” serviu ao PT por mais de dez anos, grande aliado que ele era do partido e de seu projeto de poder. “Puritanismo” só quando convém é muito, muito feio!

8 – Ser favorável ao impeachment não absolve ninguém. Não me venham com esse papo de que Roberto Jefferson é heroi. Não venham achar maravilhoso e baluarte da ética o Sr. Alfredo Nascimento porque ele, ao votar, disse estar renunciando ao cargo de presidente do PR, porque não concordava com o posicionamento do partido e queria votar sim. Este sujeito foi ministro da Dilma. Dos piores. Da longínqua época das “faxinas”…

Ademais, finalizo: não existe mágica que leva ninguém para o Congresso Nacional. Espero que a maioria das pessoas tenha identificado o seu parlamentar na votação de ontem e concordado com o voto que ele proferiu. Eu identifiquei o meu e concordei com o voto dele. Se isso não aconteceu com você, uma de duas coisas é verdade: ou o seu deputado não foi eleito, o que pode, de fato, ter ocorrido; ou há alguma coisa muito errada e provavelmente você não pensou muito antes de escolher. A boa notícia é que o seu próximo voto pode ser diferente. Mas precisamos, sobretudo, não fugir das nossas responsabilidades. Quem votou em Temer para vice-presidente, votou em Temer para vice-presidente. Quem não lembra em quem votou ou votou-naquele-cara-porque-não-sei-quem-pediu, tem responsabilidades. A falta de responsabilização, de autocrítica, é que acaba nos colocando em situações como a situação na qual nos encontramos.

Marcel Beghini

Marcel Dornas Beghini é mineiro, de Belo Horizonte. Jornalista formado pela PUC-MG, atualmente cursa Direito na Faculdade de Direito Milton Campos.

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