É muito fácil ser petista quando se tem o dom da ubiquidade

É muito fácil ser petista. A qualquer tempo. E enquanto o PT conseguir ocupar vários campos políticos ao mesmo tempo, sempre haverá um em que o petista tem razão.

Já são quase dois anos de petistas criticando o golpismo da Operação Lava Jato. Dizendo que os vazamentos são seletivos. Lula dizendo que o combate à corrupção prejudica o país. São quase dez anos de alianças com o PMDB. Aí, assim que o cenário se inverte, o petismo passa a não conhecer os aliados históricos e virarem defensores da Operação Lava Jato.

Primeiro, disseram que o impeachment acabaria com a Lava Jato. Não acabou. Depois, se apegaram às gravações divulgadas pela Folha de Romero Jucá dizendo que queria usar o impeachment para acabar com a Lava Jato e salvar todo mundo – inclusive Lula. Agora, isso é a prova do “golpe”.

Até agora já temos áudios de Lula fugindo da Lava Jato, de Delcídio tramando fuga de delator e delação dizendo que Dilma nomeia ministro para o STJ para melar a operação e soltar presos. Dilma oferecendo ministro do STF para salvar Cunha. Agora, temos Jucá também, em áudio, querendo melar tudo. E o que isso significa, afinal? Que todos esses tentaram parar a Operação Lava Jato, e que nenhum conseguiu.

Os áudios de Jucá querendo usar o impeachment para barrar as investigações dizem mais sobre Jucá do que sobre o impeachment. Por piores que possam ter sido as intenções de alguns parlamentares para votar um processo de crime de responsabilidade da presidente, o processo continua sólido. Dilma está sofrendo um processo por crime de responsabilidade, em que não está sendo julgado o resto do cenário político nacional. Os indícios de crime de Dilma (e só isso foi decidido até agora, na votação preliminar de admissibilidade) estão lá, quer ou não queira Jucá ou qualquer outro.

Até agora, os muitos problemas de Temer não sustentam que o impeachment é inválido. Sustentam que ele é insuficiente. E isso praticamente todos já sabíamos – a não ser aquela criatura de espantalho, inventada apenas na mente de quem cria argumentos imaginários, que achava que o impedimento da presidente seria a solução de todos os males.

Se as falhas que já se acumulam no governo Temer são um indicativo de que ele não é probo ou capacitado para governar, isso no máximo o coloca no mesmo patamar de Dilma. Não fazem com que ela deva voltar. Porque vice ruim ou criminoso não é e nunca foi impeditivo para impeachment. E esse vice que está aí foi escolhido junto com ela na eleição.

E se voltarmos à discussão de eleições, temos o exemplo final da ubiquidade petista: a tal da tese das novas eleições. E hoje muitos petistas a defendem como a melhor das opções. Talvez até seja. Mas o curioso é que a forma viável de conseguirmos novas eleições é a da ação no TSE. A ação movida pela chapa derrotada no segundo turno. A ação que já chamaram de golpismo.

Os petistas e marineiros que hoje falam de novas eleições perderam o prazo para pedir novas eleições no TSE. Alguns até apresentaram uma PEC para tentar dizer que fizeram alguma coisa, mas o fizeram de forma errada, porque emenda constitucional não é instrumento correto para fazer isso – e mesmo que fosse, não passaria no Congresso. A tese das novas eleições foi defendida por quem hoje chamam de “derrotados nas urnas” ou “golpistas” logo do final de 2014, quando surgiram as primeiras provas de dinheiro ilegal na campanha Dilma-Temer. E seguiu assim até o início de 2016. A ação que hoje pode tirar Dilma e Temer no TSE é da “Coligação Muda Brasil” – ou seja, a coligação de Aécio Neves. O candidato derrotado defendeu preferir a cassação pelo TSE pela última vez em 13/03/2016, há pouco mais de dois meses, e abandonou a ideia quando o resultado das articulações de Brasília concluiu que o impeachment era o caminho mais viável. Agora, depois que Dilma já é dada como perdida, a tese ressurge logo no PT e suas linhas auxiliares.

Não preciso nem entrar na enorme maluquice que é o PT tentar se vender como o suprassumo do progressismo mesmo tendo governado com o que o país tem de mais atrasado em política. As contradições de um partido que gosta de se comportar como governo e oposição ao mesmo tempo só pioram. No Brasil de cabeça pra baixo de 2016, o petismo defende a Lava Jato e novas eleições. Ano passado, a Lava Jato e as novas eleições eram instrumentos do golpismo. A habilidade do petismo defender qualquer coisa de cara limpa, mesmo se contradizendo, é impressionante. Mas não é louvável. Ao fim e ao cabo, significa apenas que a única coisa que realmente defendem é a si mesmos.

Alberto Lage

Alberto Lage tem 22 anos, estuda Direito na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, perdeu a paciência com partido político, é fã de Dire Straits e colecionador de quadrinhos do Tio Patinhas. Está permanentemente no twitter @AlbertoLage.

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