
Por Gabriel Azevedo
Ao mirar o relógio, girando o pulso na minha direção, certifico-me pelo horário de que faltam precisos seis meses para as eleições. No dia 8 de outubro de 2012, pontualmente às oito horas da manhã, como manda o artigo 144 do código eleitoral, será iniciada a votação nos 5.585 municípios brasileiros. A população irá se dividir em dois grupos. O primeiro votará. O segundo será votado. Nossa cambaleante democracia representativa dependerá mais uma vez dessa dança cujo casal nem sempre acerta os passos, mas cuja insistência no movimento é essencial para que a coreografia continue. Devemos mudar a música? Assunto para depois…
Não preciso contar para ninguém que gosto de política. Para os mais distantes é o primeiro tom a ser notado. Para os mais próximos é aquilo que eu mais sagro. Entre os dois extremos uma porção de outras nuances que se consideram negligenciadas. Misturo “A política como vocação” de Max Weber e “O Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna, tentando explicar: “Só sei que foi assim; vivo ‘para’ ela”. Num país que precisou contar mais com a própria sorte do que com a sua vocação cívica, é natural que eu seja considerado estranho. Sem falar que a profusão de péssimos exemplos nessa seara mais aproximam a atividade do código penal do que da civilidade máxima.
Adiante, essa é uma conversa que resolvi registrar. Falo comigo e contigo. Quatro elementos vão amparar esse texto. A lei, a atitude, a incerteza e Ulysses Guimarães, de quem tomarei emprestadas algumas citações.
Alguns são preocupados com a quantidade de pessoas que são necessárias para se fazer com que a lei se cumpra. Sou mais preocupado com o tempo que é necessário até que as pessoas decidirão cumprir a lei por si. Na eventualidade desta, a sociedade terá avanço mais substantivo. A vida se sucede por inesperados e planejados momentos. Na campanha eleitoral de 2010, participei de calculados caminhos. Muito mais do que garantir a vitória dos meus candidatos, queria ter combatido o bom combate. A eleição está para o político como a guerra está para o soldado. Considero minhas movimentações exitosas. O planejado ocorreu. O inesperado também. Por mais que repita para alguns, insistindo no acaso do fato, ter sido convidado para ser membro do Governo do Estado de Minas Gerais em nada se parece acidental. Há testemunhas para a minha versão, inúteis para quem aposta que tratou-se de outro movimento meu. E também não faz diferença.
Há pouco, completou-se um ano desde que passei a ocupar o cargo de Subsecretário da Juventude. Tanto foi feito. Tanto ainda pode ser. Tanto foi planejado. Tanto ainda pode ser. Agradeço todos os dias por não estar sozinho nessa caminhada. Os que seguem comigo nas ideias, ações ou abraços já calculavam e muitos achavam (e acham) que deveria colocar meu nome sob avaliação das urnas da capital mineira. Vereador. Eu já sabia qual opção iria tomar desde aquele dia 10 de março de 2011 quando aceitei o convite do Governador no Palácio Tiradentes. A LC 64/90 art. 1º, VII, b c/c LC 64/90, art. 1º, III, b, 3 é clara. Em bom português, são inelegíveis para a Câmara Municipal os diretores de órgãos estaduais não afastados definitivamente de seus cargos ou funções observado o prazo de 6 (seis) meses da eleição para a desincompatibilização. A primeira citação de Ulysses Guimarães era um mote de vida dele: “O segredo da felicidade é fazer do dever um prazer”.
O político que disser que não se diverte fazendo cálculos, sentindo terrenos e traçando estratégias de poder estaria mentindo. Contudo, o político que possuir apenas nesses afazeres o seu sentimento de dever estaria dedicando sua vida a um jogo muito medíocre. Sou feliz ao ter descoberto na política um dever de melhorar a sociedade nas mais diversas ações cotidianas. Por erros cometidos anteriormente, decidi que esse dever está acima de qualquer boa jogada no tabuleiro. Ainda que seja o xeque-mate. Não escolhi Ulysses Guimarães pelos seus belos olhos azuis. Observem sua trajetória. Muitas foram as vezes em que ele abriu mão de uma cartada fenomenal no âmbito político pessoal para contribuir de forma imensurável para o Brasil. Desconfio que para erguer a constituição ele precisou deixar de sentir o peso da faixa presidencial, por exemplo. Amo Belo Horizonte. Nesse momento, sirvo melhor a minha cidade onde estou do que conseguindo um assento na Câmara de Vereadores. Há quem discorde e eu respeito. Dizem que o terreno infértil da Legislativo municipal carece de boas ideias e bons ideais. Não posso deixar de concordar. É que responsabilidades foram assumidas… Esse é meu dever, meu prazer e, portanto, minha felicidade.
Agradeço os incentivos muito carinhosamente. Ouvir que se é necessário motiva. Ouvir que haverá apoio duplica o ânimo. Escutar isso vezes mil é impagável. A certeza de que tomei a decisão correta caberá ao tempo. Doutor Ulysses certa feita cochichou ao Doutor Tancredo que a “política é filha da consciência, irmã do caráter, hospede do coração.”
Minha consciência está leve. De bem com minha abnegada equipe de governo, de bem com os projetos do órgão que dirijo, de bem com os cinco milhões de jovens mineiros, de bem com as ideias que vou tirar do papel.
Meu caráter está sólido. Coerente com o fato de ter seguido terminando tudo o que comecei, coerente com a característica de corresponder às expectativas em mim depositadas, coerente com o senso de dever com meu Estado, coerente com o que sempre fui e sempre serei.
Meu coração está jubilante. Ainda que a consciência e o caráter fraquejassem, nesse caso o sentimento daria um jeito de romper a barreira da racionalidade para impor sua intuição.
Sigo incerto se vou conseguir conciliar alguns desejos. Ao respeitar a lei e ter firmado uma atitude, temo não conseguir realizar tudo o que planejo para esse ano. Somando função pública e partidária, subtraindo a vida pessoal. Aqueles que pensam que estarei distante das responsabilidades as quais o partido e a eleição me convocam se enganam. Estou com vigor triplicado! Os que apostaram na diminuição desse ritmo perderam. Minhas ideias se aglutinarão a outras para mostrar que esse conjunto serve mais à Câmara Municipal do que um agrupamento de homens. Isso é um lema de vida. Vamos à batalha nos desdobrando. Ou como sintetizou o humor de Ulysses Guimarães: “Vou morrer fardado, não de pijama”.
Esse exercício todo pode parecer uma encruzilhada simples para alguns. Não é. Nessa obra tenho me dedicado com muito esmero. E tem me faltado moderação e calma. Poderia ser pueril e colocar a responsabilidade na internet e nas redes sociais… Não. É imaturidade mesmo. E não posso ficar utilizando-a de escudo para eventuais falhas. Preciso utilizar essas oportunidades de percurso para me aperfeiçoar, para me preparar para os desafios que virão. Planejados ou não, eles virão.
A política é como a perfuração lenta de tábuas duras. Exige tanto paixão como perspectiva. Lembro, por fim, do que dizia Ulysses Guimarães, condestável do PMDB e da Nova República que sucedeu ao regime militar: “O segredo da política reside em três coisas: “Paciência, paciência e paciência”.