Não custa tentar, Michel

Duas definições se aplicam bem ao novo governo Michel Temer:

  • É o que tem“, disse Fernando Henrique Cardoso. Ninguém nunca sonhou com Temer presidente, e até alguns que votaram nele (o número era 13, se alguém não lembra) não estão muito felizes.
  • Dilma menos a ideologia“, avaliou Demétrio Magnoli. O governo do eleito na mesma chapa (13, confirma!) só podia mesmo ser parecido com o da afastada.

De qualquer forma, Michel Miguel assume o Planalto como depositário de muita expectativa de todos os lados, positiva ou negativa. A minha é a soma de FH e Magnoli: considerando que é isso aí o que a gente tem, se Temer for uma Dilma que cumpra a meta de superávit, já estamos no lucro.

Por não defender a afastada, eu já me sinto mais à vontade para reclamar quando Temer comete os mesmos erros que Dilma ou nomeia os ex-aliados do PT. Acredito, porém, que o novo governo faria um imenso bem ao país se parasse de cair nas armadilhas que só servem ao PT.

O governo Michel Temer resistiria muito melhor a ataques petistas se tivesse tido o cuidado de planejar e distribuir bem sua versão dos fatos. Ao não fazer isso, deixa o Partido dos Trabalhadores ocupar esse espaço com a versão deles.

É óbvio que ao tirar a primeira presidente mulher do poder, surgiriam as alegações de machismo. Não discuto o mérito aqui, a maioria delas não faz sentido, mas elas acontecem. Quando se cria um ministério só de homens, então, se presta um enorme favor a quem já estava previamente disposto a colar no novo governo a pecha de misógino. A resposta padrão, claro, é dizer que não importa o gênero, mas a competência de quem ocupa a esplanada. Isso é verdade. Mas a resposta também não serve muito a esse caso, porque a lista ministerial de Temer, basicamente uma reciclagem do governo da afastada, não exala mérito. Tanto que o próprio governo já recuou e Temer agora diz que procurará representantes do “mundo feminino”.

Não é possível que não tinha ninguém no departamento-de-vai-dar-merda pra falar pra dar uma colorida na foto dos ministros. Ou ao menos no palco em que Temer fez em seu primeiro discurso. Todo político que se preze tem um organizador de cenários para esse tipo de evento, mas o PMDB se esqueceu disso.

Como pode um governo que quer se firmar não ter atuado ativamente para apresentar sua nova organização? Quando decidiram, de forma acertada, reunir o Ministério da Cultura de volta com o da Educação, não teve ninguém encarregado de expor uma versão? “Cultura é integrada a Educação e forma ministério ainda mais poderoso, com atuação multisetorial”. “Desenvolvimento Agrário agora caminha lado a lado com Agricultura”. “Direitos Humanos, Mulheres e Diversidade racial ganham mais força no coração do Ministério da Justiça”. Todos esses exemplos poderiam ser manchetes positivas para o governo, se esse soubesse divulgar sua versão. Não houve esse cuidado. Ficou o PT repetindo a versão abobada deles, sem reação do governo.

No primeiro dia que reclamassem da falta de mulheres no governo, eu já teria colocado a Secretária-Executiva do Ministério da Educação e a Chefe de Gabinete do presidente a disposição de todo veículo de imprensa. Apresentado todas as mudanças ministeriais com sua versão. mas parece que depois de uma década de convivência íntima com o PT, não aprenderam como fazem para disseminar discurso governista. Um governo que já tem ataques suficientes fica perdendo tempo com bobagem e agindo na defensiva porque não sabe o que vai ser direito da pasta da Cultura.

Fica evidente que não houve o menor cuidado com a comunicação quando Temer lança o lema “Não pense em crise, trabalhe!”. Primeiro, é uma reedição do que os petistas diziam ao negar a crise. Segundo, na forma que foi dito, é brega, como uma boa frase de posto de gasolina. Terceiro, fica tenebrosamente soviético quando o presidente fala que quer distribuir isso em outdoors pelo país. Ninguém conduziu uns grupos de pesquisa pra testar isso aí?

Sei que conquistar a confiança do Congresso é muito importante e o interino, ex-presidente da Câmara, tem habilidade para fazer isso bem. Assim como Henrique Meirelles deve estar trabalhando direitinho para reconquistar os mercados. Mas há, na opinião pública, uma batalha a ser disputada. E Temer deveria ter aprendido uma coisa com o PT, um talento que garantiu inclusive a eleição do próprio Michel: se apropriar da narrativa. O PT nunca fez muito especialmente para as mulheres. A maior conquista feminina do governo Dilma foi o nascimento da própria nesse gênero. Para a população LGBT, praticamente nada. Quanto à Cultura, ficou distribuindo recursos públicos via Lei Rouanet como já se fazia. Mas posa como defensor de todas essas pautas porque ninguém nunca contestou. E aí muita gente pode falar que é melhor falar do que fazer. Para o mundo real, pode ser verdade. Para a política, funciona diferente, e o PT fez isso muito bem: o ideal é pelo menos fingir que se importa. Não custa tentar, Michel.

Alberto Lage

Alberto Lage tem 22 anos, estuda Direito na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, perdeu a paciência com partido político, é fã de Dire Straits e colecionador de quadrinhos do Tio Patinhas. Está permanentemente no twitter @AlbertoLage.

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