O pentagrama rubro do vice decorativo

Michel Temer, que queria se vender como uma “ponte para o futuro“, percebeu que está completamente amarrado ao seu passado: o passado em que escolheu ser apoiar e ser o vice daquela que lidera a lista histórica de reprovação presidencial.
Michel Temer foi escolhido candidato a vice de Dilma numa jogada conhecida nos bastidores da política como fundamental para sua sobrevivência. Temendo não ser reeleito deputado federal, o político muito influente na Câmara e no PMDB mas que não andava não tão bom assim nas urnas, costurou o apoio do seu partido à candidata de Lula em 2010. O emprego de vice de Dilma deveria ser a bóia de salvação de Temer, mas agora virou sua âncora.

Com o desastre causado pelo governo que ele mesmo fez parte, Temer tentou se desvincular de Dilma. Seria outra medida de sobrevivência política. Mas Temer está aprendendo, da forma mais dura possível, que depois que ele colou a estrela vermelha do PT no peito, ela não desgruda mais.

Primeiro, Temer deu um sinal para sua ala do PMDB produzir o seu plano de governo. Se comportava um candidato a presidente de oposição ao governo que ele mesmo criou. 

Em seguida, fez vazar a notícia de que se defenderia na ação de cassação da sua chapa com Dilma que corre no TSE com a tese de separação das contas do vice e da presidente. Oras, se os votos são os mesmos, não dá pra impugnar a eleição de apenas um. A tese foi mal recebida pela sociedade e por juristas, e Temer acabou desistindo.

Depois, mandou uma cartinha que poderia entrar para a história como um recomeço, se houvesse um impeachment e Temer assumisse o papel de um novo Itamar. Deve acabar sendo registrada como um escorregão abobalhado.

Após romper com o governo de forma dramática e teatral na sua carta, vieram as suspeitas de que Temer estaria tão envolvido no esquema do assalto à Petrobras quanto os petistas, e teria ficado preocupado com Jorge Zelada, apontado como operador do PMDB, falando mais do que devia. Zelada acabou condenado por Sergio Moro e até agora não sabemos se disse algo de Temer. Ou se o silêncio teve algum preço.

Em algum momento, os antigos parceiros devem ter cobrado Temer. Sabe-se lá como. Mas o vice passou a dizer que o impeachment tinha enfraquecido. Que o Brasil estava otimista. E coroou seu retorno patético às graças do PT ao apresentar uma defesa de Dilma e de si mesmo ao TSE.

Defendendo sua chapa na justiça eleitoral, Temer alegou que as doações à campanha de Dilma não possuem “quaisquer irregularidades” e que “o elo da corrupção não se perfaz”. Para qualquer um que tenha lido o noticiário, parece piada. 

Temer diz que cobrar a apuração dos crimes da campanha de Dilma é “inconformismo” do PSDB, autor da ação que pode cassar a chapa. Oras, qualquer um sabe que o PSDB não faz mais que a sua obrigação em cobrar. O que os brasileiros cobram hoje dos partidos de oposição é mais atuação, e não menos, como espera Michel.

Se a carta de Temer serviu para alguma coisa, foi para adicionar um tom de ironia na sua volta ao coração do governismo. Depois de escrever como se estivesse rompendo, mostrou que a estrela vermelha de cinco pontas nunca saiu do seu peito. E a sua contradição ridícula nunca sairá de sua biografia. Afinal, scripta manent.

Alberto Lage

Alberto Lage tem 22 anos, estuda Direito na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, perdeu a paciência com partido político, é fã de Dire Straits e colecionador de quadrinhos do Tio Patinhas. Está permanentemente no twitter @AlbertoLage.

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