Para Leite e Marcus

Não escrevo aqui na Turma do Chapéu há algumas semanas. Enquanto estive dedicado à campanha de Alexandre Kalil, não estava com tempo ou disposição pra isso. E nas últimas semanas, quando as coisas ficaram tensas, preferi esperar o resultado. Como esse é um texto sobre uma eleição que já acabou, e que vencemos, acho que tudo fica mais convincente, afastados os interesses de virar votos ou qualquer tipo de rancor.

Tive idade para votar pela primeira vez em 2010. Pela disposição dos cargos na urna, meu primeiro voto em toda a vida foi para deputado estadual. João Leite. 45777. Eu nem precisava votar, mas estava lá, depositando minha confiança no goleirão. Depois, quando me filiei ao PSDB, tive a oportunidade de conhecer João Leite melhor. Um sujeito incrivelmente simpático. Divertido e bom de brincadeiras. A relação que construímos de carinho me deixou até constrangido de estar em outro lado na eleição desse ano. Mas foi enorme a minha felicidade no dia 6 de setembro de 2016, quando, no debate do Ibmec, pude conversar com João Leite respeitosamente, mesmo com um crachá da campanha adversária pendurada no meu pescoço. Na companhia do professor Cláudio Beato, outro que já esteve com o PSDB e agora estava com Kalil, João comentou que se divertia com as bobagens que eu publico no twitter enquanto trocávamos gentilezas e abraços. Fiquei satisfeito ao ver que, mesmo com alguns militantes tucanos já xingando, o candidato sabia diferenciar as coisas e manter o respeito. Cheguei inclusive a comentar com mamãe como João Leite era mais educado e gentil que a média. Que ilusão.

A campanha passou. O segundo turno chegou. Eu mantive rigorosamente a mesma posição. Até que no debate da ACMinas eu fiz como em todos os outros: na chegada dos candidatos, estendi a mão para o deputado que elegi. João Leite olhou e passou direto. Que deselegância.

Aquilo me deixou chateado. Estávamos disputando uma eleição. Na época, ele ainda estava até na frente nas pesquisas. Eu seguia o mesmo. E fiquei, com cara de trouxa, de braço estendido, na entrada de um auditório.

Daí pra frente as coisas mudaram radicalmente. Todos viram o debate da RedeTV! Patético. Aquele João Leite não existia. Achei que pudesse ser só orientação do marqueteiro. Depois, ao ter acesso a uma mensagem de áudio de WhatsApp supostamente distribuída pela família Leite, vi que o nível realmente tinha baixado. Com consentimento do candidato. Acusavam Alexandre Kalil de fazer sacrifícios com bodes para vencer a eleição. Só não publico aqui porque não posso provar a autoria. No começo eu achei engraçado. Mas é só deprimente. Assim como foi deprimente assistir pastores acusando Kalil do gravíssimo crime de “apoiar o homossexualismo”. Que vergonha.

Na verdade, muito do que defendi nessa campanha aprendi nos meus tempos de filiado ao PSDB. Eu aprendi, mas o PSDB esqueceu. Os governos de Aécio e Anastasia avançaram na defesa do respeito à diversidade sexual e de gênero. A campanha tucana de 2016 instrumentalizou pastores para disseminar ódio e preconceito. O PSDB defendia a importância do empreendedor. Depois, pintaram empresários como o próprio capiroto, e anunciavam processos trabalhistas como a pior coisa do mundo. O PSDB, nas campanhas que participei, alertava dos perigos do PMDB de Newton Cardoso. Eu sei bem as coisas horríveis que ouvi da tucanagem de alta plumagem sobre Antonio Andrade, vice de Pimentel. O mesmo que Aécio apertou a mão na foto mais deprimente de 2016 – aquela que virou até comercial da campanha de Kalil, de tão repugnante.

O PSDB mineiro perdeu essa eleição porque tentou repetir Pimenta da Veiga. Enfiar um candidato sem sentir a temperatura da sociedade e com a empáfia de quem acha que elege qualquer poste. Mandem esse erro histórico pavoroso de volta pra Goiás, gente. Eu acredito, de coração, que nada disso teria acontecido se o candidato tucano em 2014 tivesse sido Marcus Pestana. Teriam ganhado a eleição em Minas e conseguido um cenário melhor, podendo ganhar até no Brasil. Defendi Pestana para governador e votei nele para deputado federal. Pedi votos aos amigos. Não faço isso nunca mais.

Em 25 de outubro, Pestana deu as seguintes declarações ao Jornal O Tempo:

Pestana ainda alfinetou a campanha de Kalil, dizendo que eles provocaram e agora vão ver o que é uma “condução (de campanha) de profissionais”. “O Kalil é um baú inesgotável de surpresas desagradáveis para ele mesmo. Nunca vi um candidato tão frágil assim”, disparou.

Pois é, deputado. Vimos o que é a campanha de profissionais. É a que perdeu. Vimos o candidato tão frágil. É o que ganhou. Vou considerar um elogio à capacidade da equipe. Obrigado.

A alfinetada arrogante e desnecessária de Pestana se somou a uma semana desastrosa para ele. Foi quando ele também apareceu com um projeto que me fez arrepender profundamente de ter votado nele. A bizarra proposta que acaba com as doações eleitorais e destina uma montanha de dinheiro público para campanhas políticas. É uma proposta que, além de gastar dinheiro público com o que não devia, congela o sistema político porque só financia quem já está no poder. É tão pavorosa que eu poderia escrever só sobre ela. Se quiser, leia no Josias. Vou voltar ao tema original.

No final de tudo, Pestana ainda institiu em repetir Marilena Chauí e chamar Alexandre Kalil de “protofascista”. Sem comentários.

A verdade é que o derretimento psicológico da campanha tucana, que os deixou com as atitudes que citei aqui, refletem o susto que levaram com um Kalil que não estava no radar. Como não sabem brincar de outra coisa, primeiro tentaram transformar Kalil em petista. Só dá pra responder uma bobagem dessas no melhor estilo Alexandre: petista é o caralho.

Muita gente da campanha de Kalil já tinha feito campanha para o PSDB. O núcleo principal era majoritariamente de gente que tinha ficado de saco cheio dos tucanos – mas que também jamais seria petista por causa disso. Mas enquanto isso, disseminavam boatos de que a candidatura era um grande plano lulopetista. Quem já esteve por mais de cinco minutos com Alexandre Kalil sabe que jamais alguém mandaria nele. Ainda mais pra fazê-lo de fantoche da estrela vermelha.

Nas primeiras semanas do segundo turno, enquanto os tucanos reforçavam um boato de que Walfrido dos Mares Guia e Duda Mendonça chegariam na campanha de Kalil, por ordens do PT, eu voltava fedendo para casa todos os dias. Saindo direto da aula para onde editávamos programas de TV, nesse calor infernal e com equipe reduzida, ficava até 1 da manhã nesse negócio.

Nos primeiros programas de TV, sobrou até pra mim a edição. Eu nunca tinha editado um programa de TV na vida. Ficando dias sem dormir pra entregar esses negócios, eu ficava furioso quando diziam que era algum petista que o fazia.

A verdade é que eles não tinham nenhuma informação privilegiada sobre isso. Apenas exerceram o hábito de apontar pra tudo que não é tucano e dizer que é petista. Não colou. Belo Horizonte, que deu uma surra no PT, onde Dilma perdeu em 2014, elegeu Kalil. Aliás, estavam tão desorientados que, enquanto chamavam de petista, tentavam também chamar de aliado do Cunha… Oras, gente. Kalil estava no PHS porque o modelo político que vocês sustentam assim o exige. O mundo político todo sabe disso. Todos sabiam que ele não tinha vendido a alma pra partido. Mas tentaram fazer parecer assim no discurso eleitoral. Não volou.

Claro que alguns petistas votaram 31. Afinal, a outra opção era mandar um 45 + confirma. A outra opção não tinha respeito pelas ocupações urbanas. A outra opção usava igrejas para atacar a diversidade sexual. Mas aí é com eles. Ninguém fez acordo por isso.

Saio feliz de uma campanha vitoriosa. Foi a segunda vez que eu recebi um “Muito obrigado” de alguém que elegi. De todos os homens públicos que apoiei, infelizmente só consigo listar dois que respeitaram o meu trabalho e a minha inteligência, sem cobrar subserviência: Alexandre Kalil e Antonio Anastasia.

Saio chateado que os tucanos tenham se destemperado tanto. Espero realmente poder voltar a conversar com João Leite com o mesmo respeito que tínhamos antes. Esperaria poder votar em Marcus Pestana de novo, mas com esse projeto aí de “Fundo de Financiamento da Democracia”, a não ser que ele mude de ideia, não dá. E espero que vocês encontrem um rumo. Que reconheçam e aprendam os erros. Que parem de achincalhar quem tenta contribuir com ideias. E que retomem o caminho do respeito.

Forte e respeitoso abraço dos “amadores” a vocês, “profissionais”.

“Primeiro, eles desprezam, depois ignoram, depois agridem e no final, perdem.” – Alexandre Kalil


[Curiosidade: Origem da citação atribuída a Ghandi]

Alberto Lage

Alberto Lage tem 22 anos, estuda Direito na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, perdeu a paciência com partido político, é fã de Dire Straits e colecionador de quadrinhos do Tio Patinhas. Está permanentemente no twitter @AlbertoLage.

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