Recados de um Pessimildo sobre o impeachment

A vantagem de ser pessimista é que você comemora quando está certo e quando está errado. Foi o meu caso com o acolhimento do impeachment por Eduardo Cunha. Não acreditava que ele iria fazê-lo, por ser sua última munição. Mas, prestes a ser (justamente) cassado, Cunha atirou.

Achei positivo, do ponto de vista da oposição, ter conseguido a abertura do impeachment sem vender a alma para Eduardo Cunha. Será útil, no futuro, falar que votamos tanto contra Dilma como contra Cunha.

Mas há uma ressalva: para conseguir resultados concretos, não se deve deixar de ver a realidade. O otimismo e a empolgação não podem atrapalhar o planejamento da oposição agora.

Na mesma hora que Cunha anunciou a abertura do impeachment, o Congresso Nacional aprovou a alteração da meta fiscal. Uma verdadeira violência à Lei de Responsabilidade Fiscal, que ficou ofuscada pelo anúncio. E uma grande vitória do governo, que será aproveitada por Dilma – já que vale pra 2015, e mesmo que o impeachment passe, é praticamente impossível que Temer tome posse esse ano.

A mudança da meta fiscal era importante para impedir que o governo desrespeitasse a LRF e cometesse crime de responsabilidade – justamente o motivo pra impeachment. E essa o governo levou.

Hoje mesmo, na mudança da meta fiscal, em votação na Câmara, o governo teve 314 votos. Precisa de 172 pra barrar o impeachment. A oposição teve 99 votos. Precisa de 342 para aprovar o impeachment.
Já no Senado, o governo, mesmo com o seu líder preso, teve 46 votos para arrombar a Lei de Responsabilidade Fiscal. Precisa de 28 para barrar o impeachment. A oposição teve 16 votos. Precisa de 54 para aprovar o impeachment.

Peço à oposição, especialmente a da Câmara, que não deixem a empolgação distorcer a realidade. É uma missão difícil. São muitos votos a conseguir, e o que precisamos agora é de articulações políticas, e não de deputados afobados querendo aparecer.

Dilma, agora, tenta personalizar o impeachment em Cunha – e o comportamento explosivo do presidente da Câmara a ajuda muito nisso. A narrativa que Dilma elaborou e já começou a desenhar no seu pronunciamento é a melhor possível pra ela no momento, na minha opinião. Só, com a popularidade abalada pela destruição econômica que o governo petista causou, pouca gente vai acreditar nela.

Aos cidadãos, a mobilização e o otimismo. À oposição, peço realismo e muito trabalho. Sei que o momento é de empolgação, e peço que não me levem a mal por cortar o clima. Mas se a gente quer resultados, tem que fazer direito o que precisa ser feito.

  1. Recomendo também a análise da consultoria Eurasia, que é ainda mais pessimista que eu 🙁
  2. O professor de direito constitucional Gabriel Azevedo explicou melhor como funciona o impeachment, em vídeo
  3. A nossa colega chapeleira Guilhermina Abreu embarcou agora mesmo para Brasília, para acompanhar o desenrolar da abertura do impeachment 
Alberto Lage

Alberto Lage tem 22 anos, estuda Direito na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, perdeu a paciência com partido político, é fã de Dire Straits e colecionador de quadrinhos do Tio Patinhas. Está permanentemente no twitter @AlbertoLage.

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