
Ribeirinhos abordam o barco no meio do Amazonas para vender seus produtos
No penúltimo dia da jornada pelo Amazonas rumo a Belém, a Turma do Chapéu acordou cedo. Apitos e avisos anunciavam a hora do café da manhã, servido das 6 às 7 horas no catamarã. Já estávamos acostumados: na primeira parada do dia, em Almeirim (PA), diversos vendedores anunciaram, aos gritos, seus queijos. Para as cidades ribeirinhas, a atividade portuária contribui bastante para a economia local.
Nem só de queijos e céu estrelado é feita a madrugada de um barco que percorre a Amazônia. Numa visita ao banheiro feminino da embarcação, uma chapeleira ouvia gritos e sons de agressão. “Eu sou sua dona! Não fique perto do meu marido. Agora volte pra lá sorrindo”, dizia uma mulher a uma criança. Já no banheiro masculino, presenciaram passageiros trocando dinheiro por drogas. O comando do barco é inacessível à noite, e simplesmente não há a quem recorrer, ainda mais na falta de autoridades e com todos restritos ao mesmo espaço da embarcação.
Pela manhã, conversamos com uma australiana que fazia uma viagem de seis meses pela América do Sul. Perguntei de suas impressões sobre país até agora e ela ressaltou as belezas naturais, o rio Amazonas e a surpresa que foi notar uma grande cidade como Manaus no meio da floresta. Entre as reclamações, ela questionava a limpeza do catamarã, principalmente dos banheiros, incompatíveis com os preços pagos.
Preços, aliás, foram um assunto bem citado na nossa conversa: ela disse que para os padrões sul-americanos, e até mesmo para os australianos, o Brasil é um país muito caro. Embora a proposta inicial fosse uma entrevista, acabamos respondendo mais do que perguntando: Jane queria conhecer a situação política brasileira, entender as diferenças entre as regiões do Brasil e descobrir onde ocorria o tal desmatamento da Amazônia. Para a imaginação dela, era difícil conceber uma floresta ainda maior e mais exuberante que a que ela via.
A turista australiana ainda hesitou para perguntar se era verdade que o tão belo carnaval de Salvador era arriscado como diziam, alertando para o risco de encontrar batedores de carteiras (o termo usado foi pickpocketing).
Passamos pelo município de Gurupá e seguimos viagem. Rumo a Breves, nosso barco passou por algumas comunidades ribeirinhas. Numa delas, vários barquinhos, geralmente com uma mulher e algumas crianças gritando, esperavam os passageiros lançarem sacolas com roupas e comida. Uma paraense, que diz fazer essa viagem há dez anos, conta que é sempre assim.
Mais à frente, a atuação era mais engenhosa: lançaram cordas, prendendo seus barquinhos ao nosso. Crianças e senhoras subiam a bordo, vendendo camarões, cocos e palmito de açaí. Depois de algum tempo, soltavam as cordas de seus barcos e pulavam na água atrás dele, para logo prenderem em outro barco que vinha em sentido contrário.
No final da tarde, próximo a Breves, uma embarcação menor se aproximou para um procedimento curioso: lançaram uma corda, que foi presa ao nosso barco, e passageiros e suas bagagens embarcaram pela janela, com o catamarã em movimento.
Ao final do dia, a Turma estava exausta. Alguns, desacostumados com a comida e com os movimentos do Rio, passavam mal. Mas a viagem estava sendo enriquecedora, e havia muita água pela frente. Cansados, fomos pras redes procurar uma posição confortável pra dormir.

Cumprindo o costume local, Alberto Lage lança sua doação aos ribeirinhos