E tem aquele filme malandro, de Sessão da Tarde, com Doris Day ainda gostosa; “Onde você estava quando as luzes se apagaram?”. Não, ele é de 1968, não é sobre os recentes apagões de energia e dos aeroportos no Brasil…
Tenho vontade de escrever um livro contando onde eu estava e perguntando onde certas pessoas estavam quando John Lennon foi assassinado, quando Elis Regina, Tancredo Neves e Tom Jobim morreram, quando caiu o avião da TAM, quando atacaram as Torres Gêmeas em Nova York, no 11 de setembro de 2011, etc.
Será que eu e os entrevistados teremos memória para tudo?
Vamos ver. Quando Lennon foi assassinado por um fã doidão, em Nova York, 8 de dezembro de 1980, eu morava em Campinas, convoquei uns amigos, coloquei um pôster dele na sala e passamos a noite ouvindo “Imagine” e enchendo a cara.
Quando Elis morreu, em março de 1982, eu estava em Paris, pela primeira vez, fazendo um intercâmbio e tinha 20 anos de idade. Lembro de ler no “Le Monde”, pequeno texto com o título: “Morre a maior cantora brasileira”.
Quando Tom Jobim passou desta para pior, TAMBÉM num 8 de dezembro, mas de 1994, TAMBÉM em Nova York (Ôoooooo cidade azarada); depois de uma cirurgia pra tratar um câncer – não, não era na laringe, apesar das quantidades industriais de charuto e whisky – eu estava dentro de um avião indo pela enésima vez para Paris, depois de férias no Brasil.
Quando Osama mandou derrubar as torres de Bush, não em Paris, mas na sortuda Nova York, eu estava trabalhando e, modéstia à parte, às favas e às picas; logo no primeiro ataque vi que não era acidente, mas um puta de um terrorismo.
Quando o avião da TAM vindo de Porto Alegre espatifou-se em Congonhas, São Paulo, eu estava em casa esperando uma namorada pra fazer uma coisa que vocês imaginam bem o que é.
Mas não posso escapar de falar onde estava e o que fazia quando Tancredo morreu em 21 de abril de 1985.
Bom, eu estava em Belo Horizonte, mas completamente fora do mundo.
Lembrei disso ao assistir, semana passada, à pré-estreia do filme “Tancredo, a Travessia”, de Silvio Tendler, aqui em Belo Horizonte, com a presença da neta, Andréa Neves, de seu irmão Aécio e seu sucessor no governo de Minas, Antonio Anastasia; entre outros ilustres e convidados.
Gostei do filme, mas não muito do título porque “Travessia” me lembra uma gozação com a música de Milton Nascimento e Fernando Brant: “Solta a vó na estrada…”. Covardia soltar a avó gagá na estrada…
Gostei do filme. Faltou um pouco de sexo, nudez, drogas e rock’n’roll, mas gostei. É bom nos lembrarmos do remoto tempo de quando os políticos eram raposas, mas raposas com ética. Hoje a maioria é ladrão de galinhas de ovos de ouro.
Bom, a história é gostosa, mas não muito nobre; confesso… Sorry…
Eu tinha uma namorada em São Paulo… A Junia que, na verdade, era Maria do Carmo, mas não gostava do nome verdadeiro…
Ela veio de São Paulo…
E instalou-se no meu apê…
Eu morava na rua Timbiras, 1942, apto 503… Entre o centro e Lourdes…
Eu era (sic) muito tarado naquela época e tava cheio de “amor intumescido” para dar, se é que me entendem… Claro, eu tinha 23 anos… Incompletos, mas tinha.
Bom, ela chegou e não saímos do apartamento nem para comer (comida). Não ligamos rádio, muito menos televisão. Ainda não tinha telefone porque telefone naqueles tempos era artigo de luxo e eu acabara de me mudar para Belo Horizonte. Celular? O que era isso naqueles dias? Ficção científica, claro.
Bom, sem dar detalhes de nosso “Último Tango em Belo Horizonte”, dia 21 de abril, feriado; fui levá-la a rodoviária. Ela voltou para São Paulo e eu fui para Barbacena.
Lembro que a cidade estava vazia e estranha, o que é nada estranho, ver Belo Horizonte vazia, num feriado.
Fui.
Faço a mínima ideia se foi no meio da viagem ou quando cheguei a Barbacena, que soube da morte de Tancredo depois de longo martírio. Anos depois, em Paris, me contaram, como num filme de suspense, outra versão apavorante e maluca sobre seu assassinato, perdão, morte. Um dia conto aqui, se não correr o risco de também ser assassinado como um Celso Daniel.
Bom, deixei minhas tralhas em casa e aceitei convite de uma ex-namorada, para tomar sol em sua piscina. Ficamos lá vendo aviões aterrissarem, sem parar, em Barbacena, porque não havia aeroporto em São João Del-Rei.
Não fui convidado, mas vi tudo pela televisão: a comoção do povo, o porta-voz taciturno, Antônio Britto; os políticos de todos os partidos em São João, inclusive os sinceros, e até o coveiro que ficou famoso pela pá que cimentou a cova de Tancredo.
Aí veio Sarney…
Aí veio Collor, Itamar, FHC…
Aí veio Lula e Dilma…
Ai Tancredo! Por que tinha que morrer?
Nunca tomei uma cachaça com Tancredo, achava engraçado aquele narizinho arrebitado, gostava de suas frases sobre política, suas definições e ideias sobre a política e os políticos; sua inteligência, sua paciência, sua ética e honestidade. Como a de Itamar Franco, nunca ouvi ser questionada a honestidade de Tancredo Neves. Nem dos militares de 64… Mas isso é outra história.
Tancredo serviu a Getúlio Vargas, Jango e ao Brasil. Passou por poucas e boas, veio, viu, venceu, mas não levou. Passou à história como aquele que foi sem nunca ter sido. Uma injustiça maior do que a que perseguiu Ulysses Guimarães, perdido numa eterna viagem ao fundo do mar. Por isso concordo com suas últimas palavras ao neto Aécio: “Eu não merecia isso”.
PS: Só não faço coro para uma máxima do filme dita pelo próprio Tancredo: ”O mineiro não é radical. Se é mineiro, não é radical. Se é radical, não é mineiro. Mesmo tendo nascido em Minas”. Quem sabe sou um mineiro radical, mas chic e modesto? Vai ver sou mesmo um mineiro fajuto. Um turista acidental em Minas.